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O CORPO NÃO SE MOVE EM PARTES: do pensamento cartesiano à visão integrada do treinamento.

18 de ago.
8 min de leitura


E se o problema não estiver no exercício, mas na forma como aprendemos a olhar para o corpo?


Durante séculos, dividir o complexo em partes foi uma das grandes ferramentas utilizadas para compreender o mundo.

E o corpo não ficou fora desse processo.


Músculos.

Articulações.

Sistemas.

Funções.


Essa maneira de pensar foi fundamental para o desenvolvimento da ciência.


Mas existe uma pergunta que interessa particularmente a quem trabalha com movimento: compreender cada parte é suficiente para compreender o movimento?


Talvez não.


E é justamente nessa tensão entre análise e integração que começa uma conversa importante sobre como pensamos, planejamos e executamos o treinamento.


1. DESCARTES: DIVIDIR PARA COMPREENDER


Em 1637, René Descartes publicou o Discurso do Método, apresentando quatro regras para conduzir o pensamento.


Uma delas propunha dividir cada dificuldade em tantas partes quanto fossem necessárias para resolvê-la melhor. Outra recomendava começar pelos objetos mais simples e avançar progressivamente em direção aos mais complexos.


A ideia é poderosa.


Quando um problema é complexo, podemos reduzi-lo. Se queremos compreender uma máquina, podemos estudar suas peças. Se queremos compreender uma estrutura, podemos analisar seus componentes.


Se queremos compreender o corpo, podemos estudar músculos, articulações, sistemas e tecidos.


Essa capacidade de analisar, isolar e compreender é uma das grandes forças da ciência. O problema não está em dividir.


O problema aparece quando esquecemos que, depois de dividir, precisamos reconstruir o todo.


E aqui começa a nossa discussão.


2. O CORPO QUE ESTUDAMOS NÃO É O CORPO QUE SE MOVE


Podemos estudar o quadríceps isoladamente. Podemos medir a força de um indivíduo. Podemos analisar a mobilidade do tornozelo. Podemos avaliar a estabilidade do joelho. Podemos medir o consumo de oxigênio.


Tudo isso produz informações importantes. Mas imagine uma pessoa correndo.


Ela não utiliza primeiro o quadríceps, depois o tornozelo, depois o core e finalmente o sistema cardiorrespiratório.


Tudo acontece em interação.


Quando alguém acelera, desacelera, muda de direção, salta ou levanta uma carga, diferentes capacidades são solicitadas simultaneamente.


Força encontra mobilidade.

Estabilidade encontra potência.

Coordenação organiza o movimento.

Respiração acompanha a demanda.

Percepção modifica a ação.

O corpo não trabalha em compartimentos.


Ele integra.


3. BERNSTEIN E O PROBLEMA DA COORDENAÇÃO


Foi o fisiologista soviético Nikolai Bernstein quem ajudou a tornar ainda mais evidente a complexidade do movimento humano.


O corpo possui inúmeras articulações, músculos e graus de liberdade. Mesmo uma ação aparentemente simples envolve uma enorme quantidade de possibilidades. O desafio do sistema nervoso não é simplesmente ativar músculos.


É organizar essas possibilidades para produzir uma ação coordenada.

Essa perspectiva desloca nossa pergunta.


Em vez de perguntar apenas:

“Qual músculo está trabalhando?”


podemos perguntar:

“Como o organismo está organizando suas possibilidades para resolver essa tarefa?”


É uma diferença enorme.


O foco deixa de estar apenas na peça e passa para a relação entre as partes, a pessoa, a tarefa e o ambiente.


4. O MOVIMENTO NÃO É UMA FOTOGRAFIA


Essa mudança também altera a maneira como enxergamos técnica.


Durante muito tempo, uma parte importante do treinamento foi construída em torno da ideia de repetir uma determinada forma de movimento.


Faça assim.

Repita.

Corrija.

Repita novamente.


Mas o movimento humano real não acontece em condições idênticas.


A superfície muda.

A velocidade muda.

A carga muda.

A fadiga muda.

A intenção muda.

A experiência muda.

O ambiente muda.

O organismo precisa se adaptar.


É nesse ponto que abordagens baseadas em sistemas dinâmicos e na relação entre indivíduo, tarefa e ambiente tornam-se especialmente interessantes.


O movimento pode ser entendido como algo que emerge da interação dessas restrições, e não apenas como a execução de uma forma previamente determinada. Essa perspectiva está na base da abordagem orientada por restrições e de diferentes linhas contemporâneas de aprendizagem motora.


5. FRANS BOSCH: ESTABILIDADE SEM RIGIDEZ


É aqui que o trabalho de Frans Bosch entra na nossa linha de pensamento.


Bosch utiliza conceitos da teoria dos sistemas dinâmicos para pensar treinamento, coordenação, variabilidade e aprendizagem motora. Sua metodologia trabalha, entre outros conceitos, com attractors, co-contrações e variabilidade, buscando desenvolver movimentos suficientemente estáveis para serem organizados, mas suficientemente adaptáveis para responder às demandas.


Isso nos leva a uma questão importante: queremos apenas repetir um movimento ou queremos desenvolver a capacidade de encontrar soluções de movimento?


Para o Motus, essa diferença importa.

Um exercício pode desenvolver força.

Mas também pode desafiar timing.


Pode exigir coordenação. Pode criar necessidade de estabilização. Pode modificar a percepção corporal. Pode aumentar a capacidade de adaptação.


O exercício deixa de ser apenas uma forma. Passa a ser uma ferramenta para desenvolver um sistema.


6. MICHAEL BOYLE: A FUNÇÃO ESTÁ NO CONTEXTO


Outra influência importante é Michael Boyle.


Sua linha de trabalho ajudou a consolidar uma abordagem prática do treinamento funcional, com grande atenção à seleção de exercícios, padrões de movimento, treinamento unilateral e eficiência.


O ponto não é transformar determinado exercício em uma verdade universal. É compreender sua função.


Um exercício não é “funcional” simplesmente porque parece mais atlético. A pergunta deveria ser:

Funcional para quem?

Para qual objetivo?

Para qual fase do treinamento?

Para qual demanda?


Isso muda completamente a relação entre treinador e exercício.

O exercício deixa de ser protagonista.

A pessoa e o objetivo passam a ser.


7. MARK VERSTEGEN: TREINAR É PREPARAR


Essa visão encontra outra referência importante no trabalho de Mark Verstegen e na filosofia desenvolvida pela EXOS.


A ideia de preparação física integrada amplia o conceito de treinamento para além da série executada na sala.


Movimento.

Força.

Potência.

Resistência.

Mobilidade.

Recuperação.

Sono.

Nutrição.

Preparação mental.


Na metodologia atual da EXOS, essa visão aparece de maneira explícita em seu Game Plan, que reúne seis pilares: treinamento, alimentação, sono, reflexão, autorregulação e movimento diário.


Essa abordagem nos lembra de algo simples: a sessão é apenas uma parte do processo.


A pessoa que entra para treinar hoje não é exatamente a mesma pessoa que treinou ontem.


Ela dormiu diferente.

Comeu diferente.

Acumulou diferentes demandas.

Está em outro estado.

O treinamento precisa considerar isso.


8. TUDOR BOMPA: INTEGRAÇÃO PRECISA DE ESTRUTURA


Mas existe um risco nessa conversa.


Quando falamos em integração, alguém pode imaginar que o objetivo é colocar tudo dentro de cada treino.


Força.

Potência.

Mobilidade.

Cardio.

Coordenação.

Velocidade.

Tudo.


Isso não é integração.

É acumulação.


É aqui que Tudor Bompa se torna fundamental. A periodização parte de uma ideia simples e poderosa: não importa apenas o que treinamos, mas quando, quanto e com que finalidade treinamos.


O trabalho de Bompa ajudou a sistematizar a organização do treinamento em diferentes fases, considerando adaptação, volume, intensidade, capacidades físicas, recuperação e planejamento de longo prazo. A abordagem de periodização também busca organizar diferentes capacidades dentro de um processo progressivo.


Isso traz uma conclusão importante: integração não significa fazer tudo ao mesmo tempo.


Significa saber como as diferentes capacidades se relacionam ao longo do processo.


9. ENTÃO, O QUE É UM TREINO INTEGRADO?


Imagine duas sessões.


Sessão A


Agachamento.

Prancha.

Alongamento.

Bike.

Corrida.


Cada componente possui uma função. Mas eles podem existir apenas como uma sequência de blocos.


Agora imagine uma sessão construída a partir de uma lógica diferente. A pessoa precisa preparar o corpo.


Produzir força.

Transferir essa força.

Estabilizar.

Acelerar.

Desacelerar.

Coordenar.

Sustentar o esforço.

Recuperar.


As mesmas capacidades podem estar presentes. Mas agora existe relação entre elas. Essa é uma diferença fundamental.


Integração não significa complexidade. Um treino integrado pode ser extremamente simples.


O que importa é a relação entre: pessoa + objetivo + tarefa + ambiente + dose + momento.


10. DA LISTA DE EXERCÍCIOS AO SISTEMA DE TREINAMENTO


É aqui que a filosofia começa a se transformar em prática.


Uma lista de exercícios responde: O que vamos fazer hoje?


Um sistema de treinamento responde:

Por que estamos fazendo isso hoje?


E acrescenta:

O que isso desenvolve?

Como isso se relaciona com o que fizemos antes?

Como prepara o que virá depois?

Como sabemos se a pessoa está pronta para esse estímulo?

Como vamos adaptar o processo se a resposta não for a esperada?


Essa diferença é central para o Motus.


Porque nosso trabalho não é encontrar o exercício perfeito.


É construir o estímulo adequado para aquela pessoa, naquele momento, dentro de um processo maior.


11. A LINHA MOTUS


É dessa convergência que nasce nossa linha de trabalho.


Não copiamos Descartes.


Não somos uma extensão de Bosch.

Não somos uma reprodução de Boyle.

Não somos EXOS.

Não aplicamos Bompa de maneira literal.


Estudamos essas ideias, confrontamos princípios, observamos evidências e construímos uma síntese própria.


Podemos representar essa síntese em cinco movimentos:


ANALISAR

Entender a pessoa.

Seu histórico.

Suas necessidades.

Suas capacidades.

Seus objetivos.

Seu estado atual.


PREPARAR

Criar condições para que o corpo esteja pronto para o que será solicitado.


DESENVOLVER

Construir capacidades: força, potência, mobilidade, estabilidade, capacidade cardiorrespiratória, coordenação e outras que sejam relevantes para aquele indivíduo.


INTEGRAR

Colocar essas capacidades em relação.


Porque força não existe apenas para produzir força. Ela precisa ser aplicada. Mobilidade precisa ser utilizada. Estabilidade precisa permitir movimento.

Potência precisa encontrar direção.

Condicionamento precisa sustentar ação.


ADAPTAR

Observar a resposta.

Modificar a dose.

Alterar a tarefa.

Progredir.

Regredir quando necessário.

E continuar.


12. O MOTUS NÃO É CONTRA O TREINO ANALÍTICO


Essa talvez seja a parte mais importante.

O Motus não propõe abandonar o treinamento isolado.

Não existe problema em treinar quadríceps.

Não existe problema em fortalecer glúteos.

Não existe problema em trabalhar mobilidade de tornozelo.

Não existe problema em utilizar exercícios analíticos.


Em determinadas situações, eles são exatamente o que precisamos.


A questão é outra: não confundir a ferramenta com o sistema.


Podemos isolar para compreender.

Podemos isolar para desenvolver.

Podemos isolar para corrigir.


Mas, em algum momento, precisamos reintegrar. Porque a pessoa não vive isolada. E o movimento também não.


13. DO ANALÍTICO AO INTEGRADO


Talvez seja possível resumir toda essa discussão em uma sequência:


Descartes nos ajuda a analisar.

Bernstein nos ajuda a compreender a coordenação.

A dinâmica ecológica nos ajuda a compreender a interação.

Bosch nos ajuda a pensar variabilidade e adaptação.

Boyle nos ajuda a questionar a função e a eficiência das ferramentas.

Verstegen nos ajuda a enxergar preparação como algo maior que a sessão.

Bompa nos lembra que tudo isso precisa ser organizado ao longo do tempo.


E então chegamos ao Motus.


Não como uma escola que escolheu um lado. Mas como uma tentativa de conectar as partes sem perder de vista o todo.


14. PODEMOS DIVIDIR O CORPO PARA ESTUDÁ-LO


Essa é a nossa provocação.

Podemos dividir o corpo para estudá-lo.

Podemos estudar cada músculo.

Cada articulação.

Cada sistema.

Cada capacidade.


Isso nos permite compreender.


Mas, quando chega a hora de treinar, precisamos devolver essas informações ao contexto onde elas realmente existem:

Uma pessoa em movimento.

Uma pessoa que pensa.


Que sente.

Que se adapta.

Que se cansa.

Que aprende.

Que muda.

Que interage com o ambiente.


Que precisa resolver problemas que não aparecem perfeitamente desenhados em uma ficha de treino.


15. TREINAR O TODO


No fim, talvez a pergunta mais importante não seja:

Qual exercício devemos fazer?


Mas:

Que capacidade queremos construir?


E depois:

Como essa capacidade precisa aparecer na vida daquela pessoa?


A partir daí, o exercício encontra seu lugar.


A ciência encontra seu lugar.

A periodização encontra seu lugar.

A tecnologia encontra seu lugar.

O treinador encontra seu lugar.


E o movimento deixa de ser uma coleção de partes. Passa a ser aquilo que sempre foi: um sistema.


É essa visão que orienta o Motus.

Não buscamos o exercício mais sofisticado.


Buscamos o estímulo que faça sentido.

Não buscamos complexidade.

Buscamos coerência.


Não treinamos partes para que elas permaneçam partes.

Treinamos capacidades para que elas trabalhem juntas.


Porque podemos dividir o corpo para compreendê-lo. Mas precisamos integrá-lo para fazê-lo se mover.


MOTUS


Movimento com propósito.


Referências e leituras fundamentais


DESCARTES, René. Discourse on the Method. 1637. Especialmente a Parte II, dedicada às regras do método.


BERNSTEIN, N. A. The Co-ordination and Regulation of Movements. Oxford: Pergamon Press, 1967.


GIBSON, J. J. The Ecological Approach to Visual Perception. Boston: Houghton Mifflin, 1979.


NEWELL, K. M. Constraints on the development of coordination. In: WADE, M. G.; WHITING, H. T. A. (eds.). Motor Development in Children: Aspects of Coordination and Control. Dordrecht: Martinus Nijhoff, 1986.


DAVIDS, K.; BUTTON, C.; BENNETT, S. Dynamics of Skill Acquisition: A Constraints-Led Approach. Champaign: Human Kinetics, 2008.


BOSCH, F. Strength Training and Coordination: An Integrative Approach. 2010s. Trabalho e cursos de Frans Bosch baseados em teoria dos sistemas dinâmicos, coordenação, variabilidade e aprendizagem motora.


BOYLE, M. Functional Training for Sports. Human Kinetics.


VERSTEGEN, M.; WILLIAMS, P. Core Performance. Rodale.


BOMPA, T. O.; BUZZICHELLI, C. A. Periodização no Treinamento Esportivo. Phorte Editora, 2023. A obra aborda planejamento, periodização, adaptação, força, sistemas energéticos, recuperação e organização do treinamento ao longo do tempo.


RAMOS, A.; COUTINHO, P.; LEITÃO, J. C.; CORTINHAS, A.; DAVIDS, K.; MESQUITA, I. The constraint-led approach to enhancing team synergies in sport: what do we currently know and how can we move forward? Psychology of Sport and Exercise, 50, 101754, 2020.


DAVIDS, K.; ARAÚJO, D.; VILAR, L.; RENSHAW, I.; PINDER, R. An ecological dynamics approach to skill acquisition: implications for development of talent in sport. Talent Development & Excellence, 2013.

 
 
 

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